Dec 1, 2007

Strangers like me

Os meus domingos são agora sinónimo de voluntariado.
Juntamo-nos depois de almoço para a preparação da comidita, e a meio da tarde quando esta tudo pronto carregamos a nossa "mega" van e iniciamos o percurso da distribuição. Em cada domingo estou com uma equipa diferente, às vezes cruzo-me com caras conhecidas que tal como eu se participam em mais que um domingo. Somos um grupo bastante heterogéneo e confesso que ingenuamente fiquei surpreendida por mal ver pessoas com a minha idade, na maioria tem 40s.

Na primeira vez que fui distribuir a comida pela cidade fiquei dividida entre as lágrimas e o sorriso de orelha-a-orelha. É espantoso as lições que aprendemos daqueles a quem no dia-a-dia mal passamos cartão. Os sem-abrigo são, e sempre serão, uma caixinha de surpresas.
Há vários spots em que paramos onde encontramos uma fila de caras à nossa espera. Mal a carrinha dobra a esquina, levantam-se e formam uma fila surpreendentemente ordenada.
São os primeiros a ajudar e a facilitar a distribuição. Se chegarmos no meio de uma "amena discussão" entre eles, rapidamente decidem que falam depois, pois não nos vão fazer assistir a tal situação (palavras deles). incrível.
O que mais querem é a sopa. É nutritiva e quente. Pedem fruta. Preferem chocolate quente ao café, com a desculpa que não querem ficar ainda mais tempo acordados.. Fico contente por ver que ainda não perderam a capacidade (e a vontade) de fazer escolhas.

Foi logo na minha primeira paragem que surgiu a situação que quase me levou a perder a compustura. Eu estava a dar sandes e um deles disse-me que já tinha comido qualquer coisa nesse dia e que não precisava da sandes, e pediu-me para eu a dar a alguém que nesse dia precisasse mais do que ele. Bumba, deixou-me perplexa. Fiquei sem palavras, não fui mesmo capaz de emitir um som. Cerrei os dentes e fiz um esforço para que não começasse a chover na minha cara. Olhei para baixo e concentrei-me apenas nas mãos dos seguintes, sem olhar por uns momentos para as caras que me apareciam à frente. Quando eu mais pensava que eram 100 cães a um osso, o salve-se quem puder...e...e eles pensam nos outros. Ainda tem coração para pensar que há pior. Quando os meus colegas estavam a arrumar tudo de volta na carrinha, levei-lhe uma sandes e pedi-lhe para ele guardar para o dia seguinte.

O ritmo é sempre o mesmo, quando chegamos a um dos nossos spots paramos a carrinha e trazemos a tudo para o passeio para facilitar, ja temos tudo organizado e mecanizado. Funcionamos tal e qual uma cantina, a diferença é que não existe balcão e os tabuleiros são directamente as mãos ou os bolsos. Anoitece cedo, de modo que quando estamos a distribuir a comida já está bem frio. Estava a esfregar as mãos e um deles perguntou-me se eu estava com frio. Não sabia o que responder, não queria mentir mas sabia que era eu, e não ele, que dentro de 5 min estava dentro da carrinha. Com um sorriso, disse que sim, que às vezes tinha. Ele sorriu e foi-se sentar. No fim, quando estavamos a arrumar tudo para arrancar novamente, ele levantou-se veio-me ajudar e segredou-me um "keep warm miss". Senti-me acarinhada, quando quase sempre somos nós que lhes desejamos o que ele me desejou a mim.

Para além de pararmos em locais específicos, em toda a volta vamos atentos e se vemos alguém numa saída de vapor, ou abrigado em qualquer outro local paramos e levamos o que temos. Como era eu que ia perto da porta, era sempre eu primeira a sair, e como era a mais nova era eu a escolhida para correr e subir escadas, correr e ir chamar quem não nos viu e andava no sentido oposto. Numa dessas peregrinações o meu alvo era um senhor de cadeira de rodas. Quando fui ao seu encontro para o chamar para perto da carrinha ele ficou tao contente... disse-me para fazermos uma corrida :) lá fizemos eu a passo e ele a rodas. No meio pediu-me desculpa por estar com a barba por fazer, e disse-me que estava tão contente por o termos visto que depois de comer ia ao hospital pedir para lhe fazerem a barba para estar decente numa próxima vez.

A situação insólita nas minhas últimas horas de 23 anitos passou-se com os sem abrigo. Já era a última paragem da ronda, perto de um shelter e estava a chover.
J - how old are you miss?
M - 23
J - hum, so young. Do you have a boyfriend?
M - No
J - Hello I am J. Nice to meet you
M - Hi, my name is Maria, it's my pleasure. (enquanto apertavamos as mãos, e a fila parada, porque ele não avançava "do meu posto")
J - Would you go out to drink a coffee some day?
M - Maybe (ja baralhada)
J - Really, would you stop here?
M - Perhaps, if I am in the area, maybe I will..
J - All rigghhhhtttt
M - J, can you continue? everyone is waiting for us....
Ao contrario de todos os outros não se foi abrigar da chuva no shelter que tinha acabado de abrir. ficou encostado à parede ao pé de nós. Arrumámos a carrinha e entrei para o meu lugar, olhei para ele para me despedir e ele soltava para o ar uns I love You que me custaram uma risota na carrinha com a Team 3.

São na grande maioria homens, nos 30s e 40s. Mulheres são poucas e de idade. Alguns deles são diferentes. Destacam-se pela educação, pelo sorriso, pelos olhos, pela destreza.. Alguns cantam para nós. Alguns ajudam-nos no fim. Pergunto-me o que fazem na rua e como foram lá parar. Alguns são novinhos e penso no que fariam se pudessem agarrar uma oportunidade. Ainda me lembro de um deles, da desfaçatez com que pedia mais sopa, do sorriso malandro com que aparecia novamente na fila misturado com os outros a ver se passava, do sorriso com que nos engraxava e nos dizia que eramos os anjos da noite dele. Tinha uma camisola escura e um gorro de la vermelha, não me vou esquecer dele. Sabe que nós não dizemos que não, e ainda bem que o sabe.

Cada domingo é uma supresa.
Nunca sei o que vai acontecer até voltarmos com a IgnatiusVan à base. Não sei o que vou ver, cheirar, o que vou ter que improvisar, ou o que vou aprender. Só sei que cada domingo é uma boa surpresa e que simplesmente me faz sentir bem comigo mesma!

4 comments:

Anonymous said...

Receava a primeira experiência. Correu bem...Acho que não havia melhor forma de conheceres a palavra " dignidade" feita corpo humano.É daquelas com que nos cruzamos onde menos se espera!Há muitas lições a aprender com os filhos de um deus menor...outra delas é perguntar quem é deus....esse que permite os infinitamente grandes e os infinitamente pequenos...
Mas, tenho uma novidade: comecei a colaboração com a Ami.Afinal, passamos a noite de Natal juntas, em ruas diferentes. Um oceano entre nós, não é nada :)

foxtrot said...

That´s my mum!!

"It's the Circle of Life
And it moves us all
Through despair and hope
Through faith and love
Till we find our place
On the path unwinding
In the Circle
The Circle of Life"

leo said...

Querida Mi,
post lindissimo, tens uma maneira tao bonita de ver a vida que chega a emocionar. Tambem adorei o post do Thanksgiving.
Obrigada por partilhares connosco.
Beijinhos
leo

Anocas said...

Queria conseguir dizer alguma coisa, mas.... confesso que conseguiste tocar no meu ponto fraco e fiquei emocionada ao ler o teu post. Revejo-me naquilo que contas. Não que tenha passado exactamente pelo mesmo, mas nos meus dias de voluntariado, ecuteiros, etc, etc, consigo aprender imenso e também me dá para ficar assim. Força! Beijinhos